Uma jornada parlamentar invisível
50 Anos do 25 de Abril

Lúcia GomesUma jornada parlamentar invisível

Ainda não tinha 25 anos quando me mudei para Lisboa, para trabalhar como assessora no Grupo Parlamentar do PCP. Não era um ‘emprego’, mas uma tarefa – a luta institucional para responder à classe que escolhi defender. Assim, saí de um estágio de uma das maiores sociedades de advogados do país e rumei ao Parlamento.

A primeira vez que entrei no edifício senti uma enorme responsabilidade – foi ali aprovada a Constituição de 1976. Fiquei a apoiar as áreas da Segurança Social, Trabalho, Administração Pública, Justiça, Igualdade, Ambiente e Juventude. Os corredores do andar onde estava nunca foram particularmente acolhedores, mas subir ao andar do plenário era verdadeiramente incomodativo. Ao passo que ficava a trabalhar horas seguidas, PS e PSD enchiam a bancada às quartas e quintas, de gente que nunca via e nunca ouvi falar.

O período em que ali trabalhei – oito anos – foi particularmente importante e paradigmático na história parlamentar: acompanhei a maior revisão ao Código do Trabalho e a destruição de direitos que ainda permitiam alguma dignidade ao trabalhador, a destruição do vínculo e carreiras na Administração Pública, à redução criminosa das prestações e pensões sociais. Cabia-me ler, compreender, pensar e redigir, e três dos diplomas fundamentais dos direitos laborais e sociais foram alterados nessa altura. Era, apesar de frequente, bastante penoso e frustrante escrever 385 propostas de alteração ao Código do Trabalho, despachadas em menos de uma semana – todas recusadas. O argumento? “Temos maioria absoluta”.

Confesso que durante vários anos custava-me saber que tinha de ir – podíamos ter toda a razão, jamais aprovariam propostas do PCP. Assisti à transição de governos e a mais cortes, de subsídios de natal e férias, à alteração profunda das relações de trabalho, degradando a réstia dos direitos já conquistados, mas que sabia que havia quem jamais abrisse mão.

Hoje, o Parlamento mais parece uma taberna. Ao fim de oito anos saí: brincar às democracias não tem piada. Apresentam-se dezenas de propostas e a resposta é sempre a mesma. É ‘não’, porque podem dizer ‘não’. Levei muito mais vezes a Feira e os nossos problemas ao conhecimento do Governo do que eleitos. Reconheço que foi uma experiência muito importante, que me fez crescer imenso e aprender muito. Trouxe-me pessoas muito importantes e permitiu-me trabalhar com duas que serão sempre referências incontornáveis: Odete Santos e Honório Novo.

É com vergonha que vejo no que se tornou o Parlamento. Mas só está assim porque assim se escolheu. Da próxima vez que alguém sofrer com mais injustiças, lembrem-se que nós somos mais. E somos nós que votamos. E que temos o direito de fiscalizar e exigir. Escolhi o meu lado da barricada, mas também escolhi não fazer parte de estruturas viciadas e totalmente alheadas da realidade. E vocês? Gostaria de depositar a confiança que a hora é agora e que são vocês que vão dizer ao Governo quem manda.

Voltei ‘à barriga da mãe’, às raízes, à nossa terra, onde estive tantos anos na Assembleia Municipal. E somos ainda muito poucas as mulheres com condições de participar em igualdade. Mas também sei do que somos feitas. E espero que nos encontremos nas próximas reuniões públicas de Câmara e Assembleia. Porque jamais deixarei de lutar pela nossa terra, porque não quero deixar este mundo estranho ao meu sobrinho e à minha irmã. E o que os nossos pais passaram, exige de mim que nunca desista. Cá estaremos, não é?

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Marcelo Brito
JORNALISTA | Curioso assíduo, leitor obsessivo, escritor feroz e editor cuidadoso, um amante do desporto em geral e do futebol em particular.
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